PL 5069 #AgoraÉQueSãoElas – SILVIA FEOLA E MARCELO RUBENS PAIVA

http://cultura.estadao.com.br/blogs/marcelo-rubens-paiva/por-que-homens-nao-usam-saia/

Por que homens não usam saia?

Marcelo Rubens Paiva

10 novembro 2015 | 11:27



O PL 5069, do controvertido presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que dificulta o aborto legal em caso de estupro e limita o atendimento das vítimas, foi aprovado graças à intervenção da bancada evangélica pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados, deu em manifestações nas ruas e no mundo virtual, em que se pediu um estado laico.
Cartazes com os dizeres “Útero Livre Já”, “Meu Útero É Laico”, “Meu Corpo Minhas Regras” se misturaram na Avenida Paulista e na Cinelândia aos que pediam “Fora Cunha! Fica Pílula”.
O movimento #AgoraÉQueSãoElas sugere que colunistas de jornais e da rede cedam seus espaços para vozes femininas ratificarem que o machismo brasileiro está enraizado nas nossas relações sociais, e que uma onda conservadora patrocinada por grupos religiosos estaria empurrando para trás avanços da sociedade.
Depois que uma menina de 12 anos, participante do programa Master Chef Júnior, da Band, recebeu mensagens de cunho sexual pelas redes, o coletivo Think Olga criou o movimento #meuprimeiroassedio, em que mulheres de todas as idades passaram a expor, com coragem e sem autocensura, experiências terríveis de assédio.
Ficamos horrorizados com relatos de amigas que nunca nos contaram histórias traumáticas que viveram na infância, adolescência, abusadas por primos, tios, amigos de pais, porteiros, desconhecidos, ou que viveram ontem. Um depoimento encorajou outros.
Detecta-se que existe uma cultura de desrespeito que vê a mulher como um objeto inferior. Homens que não conhecem limites abusam do poder e atacam impunimente, encoxam no trem, ônibus, metrô, acreditam que o corpo que a está à frente lhes pertence, não tem sentimentos, está à sua disposição.
Compartilhei dramas de amigas, me indignei com o atraso de um país que já deveria ter criado mecanismos de defesa para as mulheres não sofrerem constrangimentos e não serem vítimas da violência sexual (real ou virtual). Enquanto uma aluna da Geografia da USP, Luísa Cruz, um ano depois de ter sido atacada dentro do campus, volta a receber ameaças do perseguidor. Teve de recorrer às redes sociais, pois a universidade não colaborava com as investigações.
Para completar a semana de horrores, a atriz Taís Araújo foi atacada na web com comentários racistas e sexistas depois de postar uma foto no seu perfil, crime de injúria racial que já havia sido praticado contra a mulher do tempo do Jornal Nacional, Maria Júlia Coutinho, a Maju.
Sozinho, não posso fazer muito. Requisitado, farei o que precisam. Como ceder o espaço abaixo para a mulher que vive comigo, mãe do meu filho, filósofa Silvia Feola:

oi 025
Os deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marco Feliciano (PSC-SP) protestaram nas redes sociais contra pergunta do Enem que abordava o movimento feminista dos anos 1960. A questão pedia para o candidato relacionar um trecho extraído do livro O Segundo Sexo, da filósofa francesa Simone de Beauvoir, com movimentos sociais listados na prova. Para os deputados, a questão dizia respeito a uma doutrinação (partidária) sobre ideologia de gênero. No Brasil, país que, como ex-colônia europeia, é fortemente influenciado pelas diretrizes do mundo Ocidental, a história do mundo sempre é contada a partir do prisma europeu. Simone de Beauvoir deveria soar como um nome familiar aos candidatos do Enem, dado que é uma das personalidades mais importantes do pensamento francês do século 20, e uma das raras mulheres que conseguiram ingressar no hall majoritariamente masculino da literatura. Para além disso, sua importância mundialmente reconhecida na luta da emancipação feminina deveria ser objeto de estudo aprofundado na educação brasileira: primeiro porque é um dos movimentos sociais recentes mais relevantes; segundo porque questionar o papel da mulher faria bem para o futuro de todos. Mas “Simone é doutrinação”, pois gênero não existe, dizem. Será mesmo que somos todos iguais? Apenas alguém que nunca tenha se debruçado sobre as atividades chatas do dia-a-dia pode pensar que a relação mulher-lar não é socialmente imposta. O machismo engoliu o movimento feminista e fez da luta pela emancipação da mulher uma luta pela aquisição de direitos iguais, leia-se, iguais aos dos homens. Mas devemos pensar na igualdade não somente como um conceito que abriga um bem em si, mas como um conceito que diz respeito a algo: igual a que e em quê. Simone e as conquistas do movimento feminista dos anos 60 nos deram a base para repensar a questão da igualdade não como uma igualdade sem mais, mas uma igualdade qualificada. O fato de a mulher ser tratada como um igual, nos mesmos termos do homem, não significa que atingimos a igualdade necessária. Devemos comemorar que vencemos a barreira do mercado de trabalho. Mas ser feminista em 2015 é entender que o mesmo mercado de trabalho pelo qual lutamos é dirigido por homens, o que implica que não nos colocamos nele com as mesmas armas. O mercado de trabalho, tal como existe, é duro com a mulher. Por ele, sacrificamos nosso tempo com os filhos, com a casa, com a família. E se escolhermos sacrificar um pouco menos, descemos degraus profissionais. Saudamos a revolução do terno como um direito do nosso guarda-roupa, mas não nos incomodamos com o fato de que em muitos lugares é proibido aos homens usarem saia e, até há pouco tempo, as mulheres amamentarem em público. As demarcações de gênero quase sempre recaem sobre os símbolos do gênero feminino, e nunca nos perguntamos seriamente por quê. Ser feminista hoje é rever estruturas do mundo à nossa volta, para que possamos ser ao mesmo tempo mulher, trabalhar e cuidar dos filhos; ser mulher e ter plenos direitos sobre o corpo; ser mulher e escolher não ter filhos ou se casar; ser mulher e não ouvir bobagens na rua; ser mulher e poder ficar bêbada sem constrangimentos. Nossa sociedade foi construída por todos com base na ordenação do mais forte, tanto no que diz respeito ao gênero como na hierarquia social. O caminho da mudança é buscar atender o que nos une: nosso gênero feminino. #AgoraÉQueSãoElas

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