PALAVRAS, FRASES, HISTÓRIAS…

 *Roland Barthes – Fragmentos de um discurso amoroso – https://pt.wikiquote.org/wiki/Roland_Barthes

  • “ABISMAR-SE. Lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado por desespero ou por excesso de satisfação.”

  • “ADORÁVEL. Não conseguindo nomear a especialidade do seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável.”

  • “AFIRMAÇÃO. Ao contrário de tudo e contra tudo, o sujeito afirma o amor como valor.”

  • “ANULAÇÃO. Lufada de linguagem durante a qual o sujeito chega a anular o objeto amado sob o volume do amor em si: por uma perversão propriamente amorosa, é o amor que o sujeito ama, não o objeto.”

  • “AUSÊNCIA. Todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado – quaisquer que sejam a causa e a duração – e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.”

  • “CARTA. A figura visa a dialética particular da carta de amor, ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (cheia de vontade de significar o desejo).”

  • “CIRCUNSCREVER: Para reduzir sua infelicidade, o sujeito coloca sua esperança num método de controle que permitiria circunscrever os prazeres que lhe dá a relação amorosa: de um lado guardar esses prazeres, aproveitá-los plenamente, e, de outro, colocar um parênteses sem pensamento as largas zonas depressivas que separam esses prazeres: “esquecer” o ser amado fora dos prazeres que ele lhe dá.”

“El roble fuerte de hoy es solo la bellota  de ayer que arraigó en su  suelo”

“O carvalho poderoso de hoje é apenas a semente de ontem que enraizou-se no solo” 

W.Reich

(…)A escritura pretende iluminar tanto o objeto como o sujeito que se debruça sobre ele, e a presença do sujeito transparece no uso que ele faz da linguagem. A linguagem que constitui a escritura recusa a condição de linguagem utilitária corrente no trato explicativo das teorias; não é a linguagem que é abolida como um mero meio, tão logo o fim, a explicação, seja atingido.

…as palavras não são mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos, são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores: a escritura faz do saber uma festa. (…) a escritura se encontra em toda parte onde as palavras têm sabor (saber e sabor têm, em latim, a mesma etimologia). (…) É esse gosto das palavras que faz o saber profundo, fecundo.[9](…)

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A LINGUAGEM ANÁRQUICA DE ROLAND BARTHES EM DOIS MOMENTOS: 
AULA E O GRAU ZERO DA ESCRITA http://www.filologia.org.br/xiv_cnlf/tomo_1/291-302.pdf

 Regina Céli Alves da Silva (UERJ)
reginaceli@click21.com.br

 1.
Sobre linguagem e anarquismo: introdução
O sintagma de abertura do título deste trabalho, “a linguagem
anárquica”, leva-nos, de imediato, a uma explicação a respeito do ad-
jetivo que o compõe. Afinal, o termo comporta, como verificamos ao
consultar os dicionários, pelo menos duas acepções: “aquilo que está
sem governo ou autoridade; desordem consequente dessa ausência”
(AULETE, 2007, p. 57). Quanto ao substantivo que lhe corresponde,
anarquismo, encontramos: “teoria política que rejeita o governo e a
autoridade do Estado” (Ibidem). Como o sentido que lhe atribuímos
aqui está ligado a essa segunda opção, ou seja, à teoria política co-
nhecida como anarquista, necessário será um esclarecimento mais
amplo e aprofundado acerca desta.
Para isso, contaremos com os apontamentos de George Wo-
odcock, no estudo dedicado ao anarquismo, suas ideias e seus movi-
mentos (1983). Logo no prólogo, devido mesmo à confusão existente
em torno das palavras anarquismo, anarquista, anarquia, o autor se
preocupa em esclarecê-las, de forma que aquele (des) entendimento
generalizado, que liga o anarquismo à desordem, ao caos, seja des-
feito. Assim, diz ele:
Anarchos, a palavra grega original, significa apenas “sem governan-
te” e assim, a palavra anarquia pode ser usada tanto para expressar a
condição negativa de ausência de governo quanto a condição positiva de
não haver governo por ser ele desnecessário à preservação da ordem.
(WOODCOCK, 1983, p. 8)

 George W. menciona adiante um histórico dos termos, que
não iremos desenvolver, mas que nos interessa, no trecho em que ci-
ta Proudhon, afirmando que este, em 1840, publicou um livro, O que
é propriedade?, tornando-se “o primeiro homem a reclamar para si,
voluntariamente, o título de anarquista”. (Ibidem, p. 9) Nessa obra, o
francês entende que:
Assim como o homem busca a justiça na igualdade, a sociedade pro-
cura a ordem na anarquia. Anarquia – a ausência de um senhor, de um
soberano – tal é a forma de governo da qual nos aproximamos a cada dia.
(Ibidem, p. 10)
Ordem e anarquia, juntas, parecem esboçar uma contradição.
Porém, apontam, segundo Woodcock, uma mudança de sentido por
que passa os termos anarquismo, anarquia, pois, Proudhon,
ao conceber uma lei de equilíbrio atuando no interior da sociedade, repu-
dia a autoridade por considerá-la não como uma amiga da ordem, mas
sua inimiga e, ao fazê-lo, devolve aos partidários do autoritarismo as a-
cusações lançadas contra os anarquistas, ao mesmo tempo em que adota
o título que espera tê-lo livrado do descrédito. (Ibidem, p. 10)
As reflexões de Proudhon encontraram eco em muitos outros
pensadores anarquistas, tais como, Bakunin e Kropotkin. E, apesar
das variadas concepções acerca do assunto, da multiplicidade de, di-
gamos, linhas, ou escolas, é possível rastrear, em todas, ideias em
comum, que as une em torno de uma filosofia libertária, ou seja: a
rejeição a toda autoridade, a toda forma de governo coercitiva, que
prive o indivíduo de sua liberdade. E é também nesse sentido a abor-
dagem que faremos dos escritos de Barthes em destaque no título
desta análise.
Para a empreendermos, iniciaremos com uma exposição de
Aula (1992), seguida de O grau zero da escrita (1986). O que nos
levou a escolher os dois textos tem a ver com o fato de este ter sido
concebido no início do percurso reflexivo do autor e aquele, no (qua-
se) arremate de tal percurso. A seguir, numa comparação entre os
dois, apontaremos a relação em comum que mantêm com o ideário
anarquista.(…)

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Por que releio sempre a Aula de Barthes

Barthes trabalha com o prazer de dar às palavras seu sentido mais puro, com olhos de dramaturgo e demiurgo
Por estranho que pareça, meu contato com a Aula de Roland Barthes não se deu no Collège de France, em 1977, quando foi proferida como aula inaugural da cátedra de Semiologia Literária, mas em plena Universidade de São Paulo (USP), onde sua voz pausada, grave, quase sem modulação, nos foi apresentada, em fita cassete, graças a uma oportuna gravação feita por um jovem brasileiro e ofertada a Leyla Perrone-Moisés.
Naquele momento, não me dei conta do quanto aquelas palavras, escorrendo lentamente do gravador, iriam iluminar certos caminhos, que minha geração precisava percorrer para ter uma visão mais ampla, ainda que tensa,  do fenômeno literário. Muitos estavam presos à generosa lealdade a uma atividade política, subterrânea ou não, de confrontação com os poderes estabelecidos da revolução de 1964. Para tanto, as correntes conteudísticas, de forte marca social, pareciam dar conta dos impasses entre “mensagem” e “código”, fazendo prevalecer a primeira e apaziguando qualquer má consciência de contemplação estética.
Outros buscavam regressar ao útero
materno do texto, alimentando-se apenas de signos e sintagmas. No horizonte, a desumanização os espreitava, solerte e redutora. Fazia-se necessária uma integração complexa e fecunda, que mantivesse a tensão entre os elementos, impregnando-os com as articulações de que sentíamos falta. No meu caso é aí que entra a Aula, à qual sempre volto, como professor de literatura.
Barthes trabalha  com  o nosso prazer e nossa ética. Qual prazer? O de mergulhar na língua (não há estudante, professor ou escritor que possa dispensar a relação gozosa com as palavras), no sentido do deslocamento de sentidos,  de uma desmecanicização, para que emerja a lição de Mallarmé, concedendo um sentido mais puro às palavras da tribo.
O novo, o insuspeitado, semântica, léxica e sintaticamente configuram o trabalho a ser executado. Como se vê, é preciso olhar a língua (que, para o escopo e a argumentação barthesiana não surge desvinculada do discurso) com olhos de dramaturgo-demiurgo: dramaturgo, porque o texto se faz no jogo incomensurável de palavras, do qual a língua é o teatro. Demiurgo, porque é preciso saber dar-lhe uma nova existência, na qual até o clichê, ou o estereótipo, se vejam descentrados e, portanto,  prenhes de outra vida. De Rabelais a Proust a atitude é uma só: levá-la à sua máxima flexibilidade, para que um mundo novo se abra.
Daí a ética de que falei, só que, agora, interna ao fenômeno e, ao mesmo tempo, aberta ao mundo: revelá-lo no que ele tem de insuspeitado, sem submeter o leitor, buscando liberá-lo das amarras do convencional. A ética, aqui, se aparenta à lição de Flaubert: a moral, em arte, consiste na própria beleza, a responsabilidade daquele que pratica a literatura está na  força que confere à  forma.(…)

*ler na íntegra em:  http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/por-que-releio-sempre-a-aula-de-barthes/

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http://resenhasexcertos.blogspot.com.br/2008/11/as-palavras-e-as-coisas-uma-arqueologia.html

As Palavras e as Coisas: uma arqueologia das ciências humanas (Michel Foucault)

Antecipar o fim: a morte do homem, simultaneamente quando há o nascimento das ciências humanas. Se o nascimento do homem como objeto de estudo é a própria luz da modernidade – a modernidade nasce quando ela própria morre, junto com o homem. Que homem morre? Ora, aquele que é objeto de conhecimento. De que modo? É disto que se trata: de Velásquez ao homem e seus duplos.

É preciso definir três estratos históricos ou períodos históricos, organizados todos como se fossem camadas num mesmo solo epistemológico, assim fazem-se as escavações arqueológicas. Num primeiro estrato: o Renascimento (século XVI/XVII); num segundo estrato: a Época Clássica (século XVII/XVIII); num terceiro: a Modernidade (século XVIII/XIX). Neste solo, Foucault organizou essas três sedimentações em torno do qual o conhecimento sobre o homem se organizou.

No Renascimento (séc. XVI-XVII) – a prosa do mundo e as quatro similitudes. Simpatia, Convenientia, Aemulatio e Analogia indicam as quatro figuras principais que articulavam o saber da semelhança: a) A Simpatia atua livremente nas profundezas do mundo, percorre os espaços mais vastos (do planeta ao homem), desaba de longe e pode nascer de um simples contato, suscita o movimento das coisas no mundo e provoca aproximações das mais distantes. É o princípio da mobilidade. b) A Conveniência é designada pela vizinhança que as coisas se dispõem. Convenientes são as coisas que se aproximam e se emparelham, tocando nas bordas, misturando as suas “franjas”, a extremidade de uma designa o começo da outra. A conveniência pertence mais ao mundo (conveniência universal das coisas) onde as coisas se encontram. c) A Aemulatio está liberada da lei do lugar e atua imóvel na distância, sem deixar de ser um tipo de conveniência. A emulação é um tipo de geminação natural, pela qual os dois lados se defrontam. Há aqui uma espécie de reflexo e espelho, onde as coisas dispersas se correspondem no mundo e se imitam sem encadeamento nem proximidade. Apresenta-se como um simples espelho e reflexo. d) A Analogia assegura o afrontamento das semelhanças, os ajustamentos, os liames e a junção, mas uma analogia pode voltar sobre si mesma sem ser contestada. Por uma polivalência universal, a analogia possui um campo de aplicação universal em que todas as figuras podem se aproximar. Neste espaço sulcado em todas as direções, o homem representa um ponto privilegiado e saturado de analogia, por onde passam as relações sem se alterar nem se inverter.

Na Época Clássica (séc. XVII-XVIII), trata-se das três empiricidades (a vida, o trabalho, a linguagem). Se as ciências humanas se endereçam ao homem, na medida em que ele vive, fala e produz, é como ser vivo que ele cresce e que tem funções, necessidades. Em geral é na existência corporal que fez dele um entrecruzamento com o ser vivo. Mas ao produzir objetos e utensílios ou organizar uma rede de circulação ao longo da qual ele pode consumir e, principalmente, ele próprio pode se achar definido como elemento de troca – é do trabalho o que se refere. Por possuir uma linguagem, o homem pode imediatamente construir alguma coisa com um saber (que tem de si mesmo e do qual as ciências humanas desenham uma das formas possíveis).

Na Modernidade (séc. XVIII-XIX) – o triedro dos saberes: as ciências humanas (vida-biologia/psicologia, trabalho-economia/sociologia, linguagem-filologia/literatura etc.). O domínio de conhecimento das ciências humanas é recoberto por três regiões epistemológicas, regiões estas que se tocam, que se entrecruzam, regiões que mantêm a relação das ciências humanas com a biologia (ciência da vida), a economia (ciência do trabalho, da produção e das riquezas) e a filologia (da linguagem). Há uma região psicológica, uma região sociológica e outra região ligada ao estudo das literaturas e dos mitos. Não seria surpreendente referirmo-nos que a região psicológica se ligue à biologia. A região sociológica se ligue onde o indivíduo que trabalha, produz e consome, se dê a sombra de uma economia. E, finalmente, a região das literaturas e dos mitos nasce das leis e formas de uma linguagem.

Concluiu-se que o homem estava fora do campo do saber, de modo que as ciências humanas analisavam as empiricidades humanas. Além disso, tentamos chegar também a essa outra afirmativa: o saber é estratificado entre o que se diz (palavras) e o que se faz (coisas). Mas a interrogação que se promove gira em torno da articulação entre esses estratos, o que ou qual elemento é capaz de fornecer as estratégias que ligam as palavras às coisas? Este elemento é o poder, cuja arqueologia das ciências humanas somente iluminava as suas sombras.

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