CINQUENTENÁRIO DE "A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA"

*através do Jornal “O TRAMBIQUE” de Otávio Martins Amaral – postagem original do blog Náufrago da Utopia

*por Celso Lungaretti – de seu Blog
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/01/tanta-vida-pra-viver-tanta-vida-se.html


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

“TANTA VIDA PRA VIVER/ TANTA VIDA A SE ACABAR/ COM TANTO PRA SE FAZER/ COM TANTO PRA SE SALVAR”

Este é o ano do cinquentenário de A hora e vez de Augusto Matraga, um filme hoje muito difícil de encontrar, mas que vocês podem assistir, completo, na janelinha lá de baixo.

Trata-se de outro de nossos grandes nordesterns (*) dos anos 60, ao lado dos glauberianos Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969).

Representou o Brasil no Festival de Cannes de 1966 e poderia ter vencido, pois era infinitamente superior aos banais Um homem e uma mulher (d. Claude Lelouch, 1966) e Confusões à italiana (d. Petro Germi, 1966), que dividiram a Palma de Ouro.

Mas, não foi o único injustiçado. O incrível exército Brancaleone (d. Mario Monicelli, 1966) e Gaviões e passarinhos (d. Pier Paolo Pasolini, 1966) também concorriam…

A mesma sina tivera Deus e o diabo dois anos antes. Como o juri pôde ser tão obtuso a ponto de preteri-lo em benefício do bobinho Os guarda-chuvas do amor (d. Jacques Demy, 1964)?!

Pelo  jeitão  e pela proximidade (pouco mais de um ano os separa), Matraga é geralmente comparado a Deus e o Diabo, mas as pretensões do Glauber eram bem maiores: ele concebeu um enredo que lhe permitisse transmitir seus conceitos acerca do subdesenvolvimento, da miséria nordestina, do latifúndio, do catolicismo, de Canudos, do cangaço, das vias para a libertação do povo, etc.

Roberto Santos, menos ambicioso, empenhou-se em contar bem uma história empolgante de João Guimarães Rosa, sobre fazendeiro poderoso que perde tudo, é dado como morto e se reconstrói trocando a antiga arrogância pela humildade e religiosidade. Trabalha para o casal de camponeses idosos que o socorreu, fazendo de ambos suas figuras paternas.

Mas, depois de certo tempo, a inquietação retorna e ele resolve sair em busca do seu destino, às cegas, deixando que o jumento o conduza (“Tou aqui quase contente, mas agora vou-me embora”, comenta um dos temas da belíssima trilha musical”).

Acaba topando com um motivo para empunhar de novo as armas, a serviço do que lhe parece ser uma boa causa. Sua opção, contudo, é depreciada na canção que encerra o filme (“Se alguém tem de morrer/ que seja pra melhorar/ Tanta vida pra viver/ Tanta vida a se acabar/ Com tanto pra se fazer/ Com tanto pra se salvar/ Você que não me entendeu/ Não perde por esperar”), dando um nó na cabeça de muitos espectadores.


Além da direção correta de Roberto Santos e das magníficas atuações de Leonardo Villar e Jofre Soares, destaque para as composições inspiradíssimas de Geraldo Vandré. Três delas foram lançadas em compacto e mais tarde incluídas em LP: “Cantiga brava”, “Modinha” e “Réquiem para Matraga”.

Um detalhe que a grande maioria desconhece: na primeira, Vandré utilizou como ponto de partida uma quadra que já constava do conto de Guimarães Rosa (“O terreiro lá de casa/ Não se varre com vassoura/ Varre com ponta de sabre/ e bala de metralhadora”). E deixou de aproveitar outros quatro versos: “A roupa lá de casa/ Não se lava com sabão/ Lava com ponta de sabre/ E bala de canhão”.

Por último: o único filme derivado de Guimarães Rosa que ombreia com Matraga em termos de excelência cinematográfica é o igualmente raríssimo Sagarana, o duelo (1974), quase desconhecido porque se tratou de uma produção bem menos marqueteada e badalada do que a concorrência.  Está disponibilizado neste link.

O roteiro de Sagarana, simplesmente primoroso, é do também diretor Paulo Thiago. Utiliza um conto curtinho como fio condutor e agrega personagens e situações de outras histórias, com tamanha felicidade que o espectador jamais suporia tratar-se de uma colcha de retalhos –desta vez no bom sentido.






* Estou ciente, claro, de que a história de Matraga transcorre no sertão mineiro e não na caatinga nordestina. Mas, as características das sociedades neles retratadas e a abordagem dada pelos diretores (inclusive com um duelo como grande final), justificam a inclusão do filme de Roberto Santos neste filão.


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ARQUIVO DO BLOG NÁUFRAGO DA UTOPIA:





*link do Jornal “O Trambique” – Edição 9 – janeiro – 2016
https://www.facebook.com/otaviomartinsescritormusico/photos/a.591563594242261.1073741827.591543390910948/988356024563014/?type=3&theater





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