“Há um sentimento compartilhado de que a gente fez tudo o que pôde e não conseguiu”, disse Florencia Ferrari, diretora editorial da empresa
Foto: Reprodução/ Youtube

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O clima na editora Cosac Naify é de luto após o anúncio de seu fechamento, feito na noite passada por um dos sócios, Charles Cosac, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Luto, como diz Florencia Ferrari, diretora editorial da empresa: “Há um sentimento compartilhado de que a gente fez tudo o que pôde e não conseguiu.” Elaine Ramos, diretora de arte da editora, ficou com a mesma sensação: “Isso [o fechamento] esteve sempre numa espécie de iminência – a gente fez o que pôde.”
Funcionária da casa desde 2001, Florencia não esconde a tristeza. Antropóloga de formação, ela acredita que a Cosac Naify, referência não apenas no âmbito dos livros de arte de luxo, mas também na tradução de clássicos, na poesia, nas ciências humanas, no cinema, no design e na literatura infantojuvenil,  tinha como marca produzir livros com valor de conhecimento, como intervenção cultural, e não apenas como produto para consumo. “Criou-se aqui uma cultura de exigência com a qualidade que passa pelos detalhes: o modo de trabalhar o texto, a mancha, o design, a produção gráfica.” Exigência que é reconhecida pelos milhares de fãs da editora, que acorreram ao site para comprar. De acordo com a editora editorial, não haverá liquidação e tampouco livros consignados nas livrarias. Mas o site vai continuar. E talvez haja um bazar de caráter para “celebrar” a despedida.
Para Elaine, ao contrário do que se possa pensar, a “editora não fechou porque era uma equação inviável. Não é verdade que não dá para fazer livro bom no Brasil. Mas a Cosac foi muito mal administrada. O Charles não pensava no lucro e tinha até um certo charme nisso. O fim da editora tem mais a ver, acho, com o projeto pessoal dele, de vida.” A diretora de arte e organizadora do livro Linha do Tempo do Design no Brasil, um dos livros marcantes da Cosac, acha que “fica um buraco, que pode ser preenchido por quem se dispuser a ter lucro pequeno em benefício de um projeto cultural.” E acrescenta, um tanto desanimada: “A Cosac era um oásis editorial. O que aconteceu é uma tragédia par os profissionais do meio.”
O professor e crítico de arte Fabio Cypriano vai mais longe: “Não tem o que se falar sobre a importância da Cosac Naify. É irretocável. Ela construiu um padrão de qualidade irrepreensível. Por isso acho uma loucura, um absurdo, uma irresponsabilidade fechar uma editora desse porte. Não entendo essa postura típica da elite brasileira, do personalismo: cansou, fechou. Não sei como foi, se tentaram algum caminho para salvar a editora. Mas acho irresponsável.”
Manuel da Costa Pinto, crítico literário e jornalista, tem opinião parecida: “Minha sensação é que, depois de um começo visionário e de um momento seguinte em que se demonstrou viável, não perseveraram no esforço administrativo de manter a editora.” E por isso mesmo, por essa singularidade, ele não crê que seu fechamento represente uma crise no mercado editorial, ainda que seja um fato “lamentável, uma notícia péssima”. Para ele, “a Cosac Naify elevou o padrão editorial a um nível inimaginável”. Destaca especialmente o investimento na tradução dos clássicos como Moby Dick, de Melville, Guerra e Paz, de Tolstói e, mais recentemente, Novelas Exemplares, de Cervantes, os projetos gráficos e os livros de arte.
A escritora e crítica Noemi Jaffe também lamenta o fim da editora: “Tenho um livro que iria sair em janeiro e agora nem sei se vai sair mais. Como todo mundo, estou desolada pela utopia que a Cosac representava . Espero que outras editoras busquem esse caminho e encontrem condições de sobreviver em condições de mercado cada vez mais desfavoráveis para quem não quer simplesmente aderir à literatura fácil.” E faz um apelo direto: “Charles, volta atrás, vai! A gente ama a Cosac! Volta atrás!”
*Colaborou Cândida Del Tedesco
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