A briga na procissão da via-sacra e A Xilogravura na Literatura de Cordel

Cícero Vieira. Jesus é pregado na cruz. Xilogravura  – https://monoarte.wordpress.com/2013/07/19/mestres-da-gravura-popular/

Xilogravura de literatura de Cordel – arte de Mestre Noza – 1965
http://www.olholatino.com.br/revista/arquivo/2006/fev/1/cordel.htm

 *arte de Amaro Francisco Borges – https://br.pinterest.com/lucianacoronel5/cordel/

*arte de Mestre Noza – xilogravura de Cordel 
https://br.pinterest.com/sergiozeiger/caricaturistas-e-ilustradores-brasileiros/

Mestre Noza. Via Sacra. Jesus é pregado na cruz. (1965) Xilogavura
Mestre Noza (1897-1984) – https://fonsecamonoart.wordpress.com/2015/05/01/mestres-da-gravura-popular/

 *Arte de Mestre Noza
 https://br.pinterest.com/lucianacoronel5/cordel/

https://leonardoboff.wordpress.com/2011/04/22/a-briga-na-procissao-da-via-sacra/

 A briga na procissão da via-sacra

22/04/2011
 

Sexta-feira Santa é dia de seriedade pela morte de Jesus na cruz. Sábado Santo, antigamente chamado de Sabado de Aleluia, é dia de alegria antecipando o clarão da Ressurreição no Domingo de Páscoa. Neste espírito – para rir mesmo – publico esse cordel que me foi dado por um pastor envangélico do Sul da Bahia, cujo nome esqueci. Ele o sabia de cor e me fez rir a mais não poder. O autor do cordel é Chico Pedrosa. Bom proveito lb (Leonardo Boff)

Quando Palmeiras das Antas
Pertencia ao Capitão
Justino Bento da Cruz
Não faltava diversão,
Vaquejada, cantoria,
Procissão e romaria:
Sexta-Feira da Paixão.

Na quinta-feira maior,
Dona Maria das Dores
No salão paroquial
Reunia os moradores
E após uma preleção
Ao lado do Capitão
Escalava a seleção
De atrizes e de atores.

O papel de cada um
O Capitão escolhia.
A roupa e a maquiagem
Eram com Dona Maria.
E o resto era disccutido,
Aprovado e resolvido
Na sala da sacristia.

Todo ano era um Jesus,
Um Caifás e um Pilatos.
Só não mudava a Cruz
E o verdugo e os maus tratos.
O Cristo daquele ano
Foi o Quincas Beija Flor,
Caifás foi Cipriano
E Pilatos, Nicanor.

Duas cordas paralelas
Separavam a multidão,
Pra que pudesse entre eles
Caminhar a procissão.
O Cristo carregando a cruz,
Foi não foi, advertia
O centurão perverso
Que com força lhe batia.

Era pra bater maneiro
Mas ele não entendia
Devido ao grande pifão
Que tomou naquele dia
Do vinho que o capelão
Guardava na sacristia.
E o Cristo dizia:
“Oh, rapaz vê se bate devagar”.

“Já to todo encalombado,
Assim não vou agüentar,
Ta com gota pra doer.
Ou tu pára de bater
Ou a gente vai brigar.
Jogo já esta cruz fora,
To ficando revoltado,
Vou morrer antes da hora
De morrer crucificado”?

Mas o pior que o malvado
Fingia que não ouvia,
Alem de bater com força
Ainda se divertia.
Espiava pra Jesus
Carregando aquela cruz,
Fazia pouco e dizia:
“Que Cristo frouxo é você
Que chora na procissão”?

E Jesus, pelo que se sabe,
Não era mole assim não.
“Eu to é com pena,
Tu vai ver o que é bom
É na subida da ladeira
Da venda de Fenelon
Que o couro vai ser dobrado
Até chegar no mercado
A cuíca muda o tom”.

Neste momento ouviu-se
Um grito na multidão.
Era Quincas que com raiva
Sacudiu a cruz no chão
E partiu feito maluco
Pra cima do Bastião.
Se travaram no tabefe
Pontapé e cabeçada.
Madalena levou pancada,

Deram um bofete em Caifás
Que até hoje não faz
Nem sente gosto de nada.
Desmancharam a procissão
O cacete foi pesado.
São Tomé levou um tranco
Que ficou desacordado.
Acertaram um cocorote
Na careca do Timote

Que até hoje está aluado.
Até mesmo São José
Que não é de confusão,
Na ânsia de defender
O filho de criação,
Aproveitou a guararapa
Pra dar um monte de tapa
Na cara do bom ladrão.

A briga só terminou
Quando o doutor
Delegado
Interveio e separou:
Cada um pro seu lado!
Desde que o mundo se fez
Foi esta a primeira vez
Que o Cristo foi pro xadrez
Mas não foi crucificado.

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A XILOGRAVURA NA LITERATURA DE CORDEL

Paulo Cheida Sans*

        No século XIX a xilogravura já estava perpetuada tanto no campo artístico como no utilitário. essa forma de arte brasileira no século XX, produzida nos grandes centros, tinha objetivo estritamente artístico. Contudo, no interior do País, sobretudo no Nordeste, artistas populares usavam-na para ilustrar folhetos em versos, os quais eram vendidos em praças e mercados. Muitas vezes, os próprios autores recitavam os versos para o público. O nome “literatura de cordel” deve-se ao costume de os folhetos serem dependurados em varas em fileiras de cordéis, esticadas entre barracas ou árvores.

Foto: Reprodução
Mestre Noza
“Via Sacra”
Xilogravura

        Foram os colonizadores portugueses que trouxeram ao Brasil os folhetos de cordel, repetindo o costume de sua comercialização desde os fins da Idade Média na Europa (Herskovits, 1986, p. 141).
        A literatura de cordel é o resultado visual da tradição oral dos repentistas. Seus autores abordavam desde fábulas, anedotas, crimes, milagres, histórias de cangaceiros e mesmo textos clássicos, sempre transmitidos, naturalmente, de modo popular. Por isso, a história é contada ou cantada com versos de fácil assimilação.
        Sabe-se que a literatura de cordel existe no Brasil desde a Abolição. Em torno de 1890 a impressão de jornais era pouca, as oficinas tipográficas ficavam ociosas. Então, os cantadores aproveitavam desse meio econômico a fim de imprimir seus versos para distribuí-los e vendê-los aos ouvintes.
        Embora a Imprensa Régia imprimisse histórias populares com capas xilogravadas em 1815, como a História da Princesa Magalona, considerada um dos clássicos do cordel, foi a partir de 1920 que a xilogravura se tornou mais usada na capa dos folhetos de cordel, para embelezá-los, tornado-os mais atrativos. Geralmente, os próprios escritores faziam as ilustrações xilogravadas, pois eram editores poetas e os próprios vendedores de suas produções.
        Leandro Gomes de Barros (1865-1918) é reconhecido como o primeiro poeta de cordel, tendo suas publicações difundidas pelos sertões da Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará.
        Joseph Luyten calcula que no Brasil circularam mais de 20.000 livretos de poesias populares (Costella, 1984, p. 94).

Foto: Reprodução
José Costa Leite
Sem título
Xilogravura

        Os principais grupos de gravura popular estão em Juazeiro, no Ceará e levam os nomes de: Walderedo Gonçalves, Abrão Batista, Mestre Noza e Stélio Diniz, além do grupo de Caruaru, em Pernambuco, que reúne Dila, José Costa Leite, J.Borges e Francisco Amaro.
Como ilustradores para cordel, destacam-se nomes expressivos como o de Severino Gonçalves de Oliveira (Cirilo) de Gravatá, Pernambuco; José Damásio Paulo; Lino Silva; Manuel Caboclo e João Pereira , de Juazeiro do Norte, Ceará.
        A xilogravura nordestina alcançou projeção internacional, sobretudo, depois que Robert Morem editou em 1965 uma coleção de catorze gravuras representando a Via Sacra gravada por Mestre Noza.
        Hoje, é comum o ilustrador assinar a prova, como se faz na gravura erudita, independente do texto. A xilogravura não se restringe à capa do cordel, sendo incluída em cartazes, folhetos educativos, estampada em pôsteres maiores e outros prospectos, até mesmo sendo feita em atenção a pedidos de encomenda. Há incentivo por parte das universidades do Nordeste do Brasil e de colecionadores para que a gravura nordestina subsista independente dos textos e dos folhetos.
        Como diz José Neistein: “Os folhetos são hoje objeto de estudo acadêmico, bem como, fonte de renovação poética, musical, da narrativa e das artes visuais no Brasil, num setor muito representativo dos criadores em nível erudito” (1981, p. 111).
        Vale realçar o acervo que o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará possui sobre as manifestações mais representativas da cultura popular brasileira, especialmente a do Nordeste. O Museu citado possui variadas coleções de gravuras de todo o Brasil, inclusive “tacos” utilizados para impressão. É uma importante contribuição para o estudo histórico-crítico da gravura popular do Nordeste brasileiro.

Referências Bibliográficas

COSTELLA, Antonio. Introdução à gravura e história da xilografia. Campos do Jordão, Ed. Mantiqueira, 1984.
HERSKOVITS, Anico. Xilogravura – arte e técnica. Porto Alegre, Tchê!, 1986.
NEISTEIN, José. Feitura das Artes. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1981.

_____________
*Curador do Acervo Olho Latino
Professor da Faculdade de Artes Visuais – CLC – PUC-Campinas.

 http://www.olholatino.com.br/revista/arquivo/2006/fev/1/cordel.htm

INÍCIO 


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